Made in Portugal
Comentário de um dos posts no blog A Causa foi modificada

“O autor da carta tem razão em relação ao curto prazo, mas há questões estruturais que são muito (ou mais) importantes. Primeiro que tudo a Alemanha tem mantido os custo unitários do trabalho quase estagnados nos últimos 15 anos. Ou seja isto começou ainda antes da entrada no Euro. Mais, isto tem acontecido apesar do crescimento da produtividade. Em Portugal (Grécia e afins incluídos) os salários têm crescido a par da produtividade, o que é normal e correcto, embora algumas pessoas argumentem que os nossos salários têm crescido acima da produtividade (certainly something to be frowned upon). Ou seja, mantendo tudo o resto igual (ou ceteris paribus como os economistas gostam de dizer), hoje em dia é mais barato produzir uma coisa na Alemanha do que em Portugal. Como disse, isto nao começou com a entrada no Euro, nem começou em 2008, mas é o resultado de um processo longo, coordenado pelo Governo Alemão, empresas e sindicatos, e que gerou apesar de tudo muitos conflitos, que levou a um aumento estrutural da competitividade através de uma quebra nos salários.

Agora poderiam dizer: oh merda, mas os alemães ganham mais do nós, logo isso não faz sentido. Aqui entra o segundo factor estrutural (ou factor importante comá merda, como dizem os Socíólogos): a estrutura industrial dos alemães é muito diferente da nossa. Enquanto que nós exportamos sapatos e camisolas, que são indústrias labour intensive (muitas pessoas, poucas máquinas) e onde as margens de lucro já estão todas espremidinhas, os alemães exportam Mercedes, Audis, Tractores, helicópetros e merdas afins. Isto são indústrias capital intensive (muitas máquinas, muita tecnologia) onde há espaço para aumentos de produtividade constantes o que permitem pagar mais mas ainda assim ter custos unitários de trabalho mais baixos. Numa hora um trabalhador alemão produz por exemplo 5000 euros, enquanto que o português produz 2000, mas isto explica-se em parte pela natureza do produto do primeiro e não apenas porque o primeiro é necessariamente mais inteligente ou mais educado.

O terceiro factor muito importante. As exportações portuguesas são essencialmente para a Europa, onde existem os nichos de mercado dispostos a pagar mais 5 euros para comprar sapatos ou meias de qualidade concebidos por designers italianos. (Também exportamos outras coisas, tipo cortiça, plásticos, moldes, mas com excepção dos últimos, os problemas destas indústrias são semelhantes). Embora, ironicamente, o sul da Europa seja um dos mercados mais importantes para os alemães (basta ver os Mercedes e Audis por esse Portugal fora para perceber que sim - mas as estatísticas comprovam-no, logo isto não é uma subjectividade sem sustento :)) existe uma classe média emergente na China, Brasil, Índia e sítios parecidos que querem as merdas alemãs mas não necessariamente as nossas. Uma vez que a crise económica afectou essencialmente os países ricos, o crescimento nos países em desenvolvimento beneficia os países que exportam bens de qualidade, ou seja, a Alemanha (o segundo maior exportador do mundo atrás da China, apesar dos seus míseros 80 milhões de habitantes e após ter absorvido uma parte do país atrasada economica e culturalmente).

Há mais coisas para dizer, mas mais uma vez já escrevi demasiado…

Só mais uma coisa então. Mas aviso já que a sequela nunca é tão boa como o original (que por sinal já era fraquinho)

O maradona tem razão (e quando é que ele não a tem?) quando fala da geografia, mas a geografia inclui mais do que distâncias, montanhas e rios. Nos anos 60 um senhor alemão (ironia das ironias) falou na causalidade cumulativa: quando num determinado sítio (bairro, cidade, região, país, etc.) convergem vários factores negativos ou positivos eles tendem a auto reforçar-se. é por isso que a pobreza e a criminalidade se concentram em sítios específicos e se torna tão difícil intervir - toda a estrutura social (educação, economia, cultura, estruturas familiares) contribui para o reforço do status quo. é também por isso que a riqueza se concentra e tem tendência para se reproduzir (ponham blue banana no google para verem do que estou a falar).

Sem um choque externo ou interno é difícil alterar este caminho. O choque externo pode ser aquilo que Portugal viveu nos anos 60 depois de aderir à EFTA, ou o que a China tem vivido nas últimas 3 décadas: um fluxo brutal de investimento estrangeiro (o dinheiro da UE conta pouco, porque ao contrário do que se pensa não foi assim tanto quanto isso). Um choque interno é mais interessante mas quase impossível de prever. Aquilo que aconteceu em Silicon Valley, Califórnia (onde hoje estão a Apple, Google, Facebook, etc.) também nos anos 60 foi mais ou menos um choque interno. Um número pequeno de indivíduos com ideias e ligações políticas criaram uma indústria onde quase só havia deserto. Mas mesmo neste caso já havia ali a universidade de Stanford, além de que o governo americano tinha muito dinheiro para gastar. Além disso os choques internos são quase sempre produto do acaso logo não se podem planear. 

Tudo isto para dizer que quando o maradona pergunta o que deveria ter sido feito a minha resposta é: muito pouco. O que Portugal pode fazer é criar as condições para aproveitar melhor os choques externos e para que os choques internos se possam difundir. Tudo o que pode ser feito nesse sentido já é sabido: melhor sistema de justiça, educação, burocracia, etc. Quanto ao resto é preciso trabalho, tempo e paciência. Eu sei que segundo o Pacheco Pereira vamos todos morrer cheios de vergonha e atolados na nossa própria merda (Frango, tirando esta asneirada não levas mais nenhuma!), mas aquilo porque estamos a passar não é assim tão extraordinário. Quantos países não precisaram de assistência num momento ou noutro? Muitos dos que hoje são supostamente espectaculares (Noruega, Finlândia) eram pobres há relativamente pouco tempo. Sei que muita gente está a passar mal e não quero diminuir-lhes o sofrimento. Também não quero desculpar os filhos da puta (mais uma afinal) que deram cabo das contas públicas. Mas estou a falar de Portugal como um todo, empresas, sindicatos e leitores da causa: houve erros mas também decisões acertadas, e duvido que alguma vez isso vá mudar. No geral as coisas têm melhorado e é provável que assim continuem.

PS. em relação ao TGV mencionado em cima tenho quase a certeza absoluta que não passa do fools gold das últimas décadas. Não há país que não o queira e não há país que o ponha a funcionar em condições. Se querem saber mais para ver o disparate de que nos livraremos caso essa treta for cancelada leiam o seguinte paper - High Speed Rail: Lessons for policy makers from experiences abroad. Aqui:http://afinetheorem.wordpress.com/2010/02/28/high-speed-rail-lessons-for-policy-makers-from-experiences-abroad-d-albalate-g-bel-2010/

- Comentário de Marques, um dos leitores do blog A Causa foi Modificada

Continuo a insistir que com pessoas assim, o país nem vai mal de todo. Precisamos de mais “comentadores” destes para influenciar e aumentar a dinâmica do pensamento português.  

  1. madeinportugal posted this
Blog comments powered by Disqus